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Além do Véu Documentarios

Basílides: O Arquiteto do Abismo e os 365 Céus

  • Foto do escritor: Aurio marden Lima carvalho
    Aurio marden Lima carvalho
  • 6 de mai.
  • 3 min de leitura

Se Valentim foi o poeta do gnosticismo, Basílides foi o seu matemático e metafísico mais radical. Atuando em Alexandria entre 117 e 138 d.C., ele fundo

u uma das primeiras e mais complexas escolas gnósticas da história, desafiando as noções de Deus, sofrimento e existência que a Igreja primitiva tentava consolidar.

Para Basílides, a origem de tudo não era apenas um Deus distante, mas algo ainda mais misterioso: o Deus Não-Existente.

O Deus Além do Ser

Enquanto muitos sistemas religiosos tentam definir Deus com adjetivos (bom, onipresente, justo), Basílides levava a teologia ao limite. Para ele, o Deus Supremo era tão transcendente que nem sequer se poderia dizer que ele "existe" no sentido humano da palavra.

Ele chamava essa origem de "O Deus que não é" — um nada absoluto que, paradoxalmente, continha a "semente do mundo" (panspermia), de onde toda a realidade brotou como uma explosão de luz e consciência.

A Cosmologia: O Mistério de Abraxas

Basílides descrevia um universo vasto e hierárquico. Segundo sua doutrina, existem 365 céus ou níveis de existência entre o mundo material e a divindade suprema. No topo dessa estrutura está uma figura que se tornou icônica no esoterismo ocidental: Abraxas.

  • Abraxas: Representado com cabeça de galo (vigilância/sol), corpo humano e pernas de serpente (logos/sabedoria), seu nome em grego soma o valor numérico de 365, simbolizando o regente do ciclo anual e da totalidade do tempo.

A Reinterpretação da Paixão

Uma das partes mais polêmicas e fascinantes do pensamento de Basílides era sua visão sobre Jesus. Diferente da ortodoxia, alguns relatos sugerem que ele defendia uma visão "docética" ou substitutiva da crucificação.

Segundo essa tradição, Jesus, sendo uma emanação espiritual pura, não poderia sofrer na carne. No momento da subida ao Calvário, ele teria trocado de forma com Simão Cireneu, que acabou sendo crucificado em seu lugar, enquanto o Cristo observava a cena em espírito, invisível aos olhos humanos. Essa ideia servia para enfatizar que a Gnose (o conhecimento) é o que salva, e não o sacrifício físico de um corpo.

Sofrimento e Destino: A Teoria da Alma

Basílides oferecia uma explicação rigorosa para o sofrimento humano. Ele acreditava que a alma passa por diversas transmigrações e que as dores que enfrentamos na vida atual são purificações de faltas cometidas em estados de existência anteriores.

Isso trazia um conforto intelectual para seus seguidores: nada era por acaso. O universo de Basílides era um mecanismo de precisão matemática voltado para a filtragem e o retorno das "centelhas de luz" ao seu lugar de origem.

Por que conhecer Basílides hoje?

Basílides foi um dos primeiros a tentar conciliar a filosofia grega (especialmente o estoicismo e o platonismo) com os mistérios cristãos e orientais. Sua influência pode ser sentida em diversos caminhos:

  1. Psicologia Analítica: Carl Jung foi profundamente influenciado por ele, escrevendo a famosa obra Os Sete Sermões aos Mortos sob o pseudônimo de "Basílides de Alexandria".

  2. O Conceito de Vacuidade: Sua visão do "Deus Não-Existente" guarda semelhanças impressionantes com o conceito de Shunyata (vacuidade) do budismo.

  3. Simbolismo: O selo de Abraxas continua sendo um dos amuletos mais poderosos e estudados nas tradições ocultistas.

Conclusão

Ler Basílides é mergulhar em um cristianismo que poderia ter sido: uma religião de intelecto puro, cosmologia vasta e uma busca incessante pelo que está além das palavras. Ele nos convida a olhar para o céu — ou melhor, para os 365 céus — e buscar a semente divina que habita em cada um de nós.

 
 
 

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